1° Capítulo Setor 27

Prólogo

– Filho, venha até aqui – disse o homem de cabelos grisalhos, cujos olhos, sombreados por uma mancha escura que predominava em grande parte do rosto, demonstrava claramente o cansaço das muitas noites que passara sem dormir. Apesar de saber que seu mundo estava prestes a desaparecer por completo, continuava sentado em uma das cadeiras da cozinha, observando o filho que brincava com uma bola de pano a alguns passos à sua frente. Por um breve momento o homem se sentiu feliz, contemplando a inocência do pequeno que ele criava com orgulho. Depois, voltou-se novamente para a realidade, que o perseguia de forma implacável, e continuou a chamá-lo:
– Venha filho, há algo que preciso lhe dizer.
Entre os poucos móveis que compunham o ambiente, alguns quadros e uma estante repleta de livros destacavam-se no corredor apertado que dividia os três cômodos da pequena casa situada em um antigo bairro da cidade do Rio de
Janeiro. Na cozinha, uma mesa encostada em uma das paredes acomodava um cesto com frutas e o jornal com a manchete que muito preocupava o homem. Era a mesma notícia que consumira a atenção da mídia durante todo o dia:

Decretado o recesso do Congresso Nacional

GOVERNO BAIXA NOVO ATO
O ministro da Justiça Sr. Gama e Silva anunciou ontem, próximo das 23 horas, duas medidas adotadas pelo governo da República, consubstanciadas no Ato Inconstitucional no 5, que entrou em vigor ontem, e o Ato
Complementar, decorrente do Institucional, que decretou recesso do Congresso. O Ato Complementar não estipulou prazo de recesso.

O menino de apenas onze anos, indiferente a tudo o que acontecia à sua volta, soltou a bola de pano sobre o piso rústico que se estendia por toda a casa e caminhou até seu pai. Puxou uma das cadeiras e atenciosamente esperou
que ele continuasse:
– Meu filho – disse o homem pausadamente –, estamos vivendo um momento muito difícil em nossa vida e também em nosso país. Não temos a prosperidade que o passado nos prometeu e nem a liberdade que tínhamos hoje nos é permitida. Por consequência de um ato político, a forma de vida que conhecemos está deixando de existir. Preciso que você entenda o que estou prestes a lhe dizer e guarde tudo em segredo, até o dia em que uma sociedade menos repressiva, em um momento diferente, permita revelá-lo. O menino parecia confuso, tentava entender as palavras difíceis que seu pai lhe dizia; nunca antes o havia visto tão preocupado, tão sério. O homem respirou profundamente, concluiu sua pausa e continuou:
– Durante muitos anos, nossa família serviu à monarquia deste país. Foram tempos muito especiais para meus pais e meus avós, tempos que, acredito, nunca mais viveremos. No passado, fomos escolhidos, entre muitos, para proteger um segredo, um segredo que algumas vezes nos levou a cometer erros, a agir em conflito com nossos princípios e tomar atitudes por muitos consideradas inexplicáveis. Pela consequência desses atos, nos vimos afastados de nossas famílias, de nossos desejos e, por diversas vezes, de nossa própria vida. Assim, sob a justificativa de um bem maior, por mais de setenta anos, cumprimos nossa tarefa de forma digna e honrosa. Mas, agora, esta nova sociedade que se impõe em nosso caminho, repressiva, autoritária e obscura, não me deixa mais condições de proteger o segredo que me foi confiado por meus antecessores; e, por isso, tenho que encontrar uma forma de evitar que o que foi guardado por tantos anos caia em mãos erradas e, por fim, desapareça. Sendo assim, deixarei a você uma parte do que me foi atribuído. O caminho para um tesouro sem precedentes.
O menino olhava fixamente o rosto do pai que, claramente nervoso, se esforçava ao máximo para ser compreendido. O homem sabia que um dia teria que dizer ao filho aquelas palavras, mas jamais imaginara que seria
ali, em um momento como aquele, e para o menino ainda tão pequeno. Segurando sua mão, pediu que esperasse por alguns instantes. Levantou-se e caminhou até o quarto. Voltou trazendo uma folha de papel amarelada, com cortes aparecendo nas bordas, e muito desgastada: resultado de décadas de armazenamento em local pouco adequado para aquele material:
– Há quase três gerações – continuou o homem, entregando o papel ao menino –, este manuscrito foi entregue pelo Imperador à nossa família, para que fosse guardado de forma segura e em segredo. Eu o tenho protegido por muitos anos e agora quero entregá-lo a você, para que o mantenha em segurança.
O menino pegou o papel das mãos do pai e, notando em seu rosto uma expressão preocupada, como nunca havia visto, apertou o papel com força contra o peito. Mesmo sem saber do que se tratava, pressentia a importância
que algo tão frágil demonstrava ter. O pai continuou:

– As histórias que tenho lhe contado durante todos esses anos irão ajudá-lo a entender, no futuro, muito do que agora estou falando.

O menino se lembrava das noites que passava acordado, ouvindo sobre as aventuras de seu pai; gostava daqueles momentos, pois era como se viajassem juntos para um mundo especial. – No momento certo, você saberá o que fazer com isto – continuou. – Até lá, não mostre este papel para ninguém. Nem sequer à pessoa em quem
você imagina que mais confia.
– Tudo bem, pai! – respondeu o garoto.
– Eu te amo, filho – disse o homem, abraçando-o fortemente.
– Eu também te amo – respondeu o menino, retribuindo o abraço.
Neste exato momento, um grande barulho ecoou pela casa. De repente, a porta de entrada, atingida por um grande cilindro de metal, foi ao chão. Três homens armados, vestidos com uniformes camuflados, entraram gritando
palavras de ordem:
– Quieto! Fique parado! – gritou um dos soldados, retirando o homem de perto de seu filho e jogando-o ao chão, prendendo seu rosto entre a sola de sua bota e o que restara da porta. – Procurem! – ordenou – Tem que estar
no meio de todo esse material subversivo.
O menino apertou mais o papel contra o peito e correu para o quarto. O pequeno cômodo tinha apenas uma cama e um guarda-roupa. Ele se ajoelhou no piso, colocou os braços sob a cama e puxou um pequeno carrinho de brinquedo, feito de madeira, e que tinha seu nome gravado. Colocou o papel dentro do brinquedo e saiu.
– Me soltem. Eu não fiz nada! – dizia seu pai, quando ele voltou à sala.

– Cala a boca – respondeu o soldado, apertando ainda mais seu rosto contra o que havia sobrado da porta de madeira. A dor era latente e gotas de sangue brotavam por entre os pedaços da porta. – Você vai pra cadeia, seu
arruaceiro. Não sabe obedecer às leis, e agora vai pagar! Assim que o soldado terminou sua frase, um quarto homem entrou na casa. Por sua postura, demonstrava ser de patente superior aos três primeiros que haviam invadido o lugar. Os olhos frios, um rosto inexpressivo e uma cicatriz recente, que lhe ocupava quase todo o antebraço esquerdo, marcava-o de forma inconfundível. Olhou ao redor e com um tom de voz
firme perguntou aos outros:
– Encontraram?
Os soldados, apreensivos, acenaram negativamente.
– Então, o que estão esperando? – continuou – Achem o que viemos buscar, e rápido!
Imediatamente, dois homens reiniciaram a busca, dessa vez revirando todos os móveis da casa, a procura de um objeto em especial. O pai, caído ao chão, esticava o braço em direção ao filho que assistia assustado a tudo o que acontecia. O menino parecia paralisado, jamais vira algo semelhante em sua vida; era uma criança, não sabia o que fazer ou como ajudar. Depois de destruírem quase tudo que encontraram pela frente, um dos soldados retornou, trazendo um quadro com pouco mais de meio metro de altura, protegido por um vidro e com um brasão gravado em relevo.

– Aqui está, senhor – disse o soldado, entregando-o ao homem.
Com um sorriso de satisfação, ele segurou o quadro e, puxando a toalha que cobria a mesa, embrulhou-o como se fosse um produto frágil e especial:
– Ótimo! – disse – Agora queimem tudo o que sobrou; já temos o que viemos buscar.
– Não! – gritou o menino. Havia saído de seu transe e, por um momento, imaginou que pudesse enfrentar o homem que atacava seu pai. Bateu com o carrinho de madeira nas pernas do oficial que com um chute jogou-o violentamente para fora da casa.
– Vamos – disse –, não temos mais nada o que fazer aqui.

Dois dos soldados foram até um dos carros que estava estacionado na frente da casa e voltaram munidos de alguns galões cheios de líquido inflamável. Um deles espalhou o material por todos os cômodos, enquanto o outro levantou o homem que estava caído ao chão e, com uma arma apontada para suas costas, fez com que ele caminhasse para o carro. Do lado de fora, a rua permanecia deserta. Os dois soldados saíram quando as chamas começavam a tomar conta de tudo. O menino, com um corte no rosto, e com o carrinho nos braços, observava assustado, encolhido num canto do quintal.
Os quatro militares, levando o homem preso, entraram nos carros e partiram. Depois que dobraram a esquina, um dos vizinhos correu até o menino que permanecia paralisado e o levou.

Um clarão cortava o céu, enquanto a casa se consumia em chamas.

Era sábado, 14 de dezembro de 1968.

Publicado on 20/10/2010 at 19:25  Comentários desativados em 1° Capítulo Setor 27  
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